Uma policial com filho com TOD

Sou Juliana, tenho 42 anos, sou mãe de Luigi, 5 anos. O pediatra do Luigi, também fez especialização em psiquiatria infantil e aos dois anos e meio diagnosticou TOD. Como éramos ignorantes no assunto, não aceitamos bem este diagnóstico e o tratamento "psiquiátrico" em uma criança com menos de três anos de idade. Batemos em diversas portas, fomos procurar auxílio entre os melhores neurologistas infantis de Curitiba, que após investigações e vários exames também chegaram a conclusão do diagnóstico de TOD. Teve um período neste começo de ano, que o Luigi não estava tomando nenhuma medicação. Eram férias de verão, e como moramos num condomínio clube, com piscina e muitas crianças, encrenca certa e desgaste desnecessário, resolvi pegar ele e minha mãe e viajar pelo Brasil, longe de tudo e todos. Foi quando uma vez por dia ele "surtava" sempre descontroladamente. Em uma das ocasiões, o surto se deu no "Museu do Amanhã", onde tivermos atendimento prestativo de seguranças e paramédicos que não sabiam como reagir, a criança tinha 5 anos e queria quebrar tudo, agrediu fisicamente dois seguranças e os paramédicos, chegando a quebrar um dos radiocomunicadores. Foi a cena mais chocante e humilhante que havia presenciado até então, me senti totalmente impotente. Ao chegar perto do Luigi, ele me agrediu, me puxou pelos cabelos e me jogou ao chão. Alguns viam e rezavam, achavam estar ele possuído. Outros, julgavam a mãe, que estava aos prantos, no chão. Encontrei duas senhoras, que trabalhavam com crianças com crises de autismo, que me consolaram e pediram se estava dando medicação.

 

Quando já estávamos fora do museu, rodeados de seguranças e equipe de paramédicos, surgiu uma moça da recreação com um pote de massinha de modelar. Me perguntou se o Luigi gostava e de qual, eu respondi, animais. Sei que ela sentou-se ao chão e não se esvaneceu perante a crise. Chamou o Luigi que parou imediatamente com a agressividade e a agitação e pôs-se junto a moça, a modelar bichinhos. Luigi continua em tratamento com neuropediatra, com acompanhamento do pediatra e psiquiatra e fazendo psicoterapia com uma neuropsicóloga. É uma luta diária, neste tempo a maioria das pessoas se afastaram de nós, eu entrei em depressão, vi minha casa e família ruírem. Apoio tive só da minha mãe e dos profissionais. Julgamento, de todos.

 

Como policial civil em Curitiba, especialista justamente na luta contra a violência infantil é muito triste ver uma criança tão pequena ser estilizada e incompreendida por todos. A gente não consegue aceitar a violência, a agressividade de um serzinho que foi gerado com tanto amor e criado com tanto carinho pela família. Que consigamos por fim, divulgar a nossa luta que passamos e ajudar a outros pais a identificar a doença. Principalmente por causa do preconceito, precisamos de todos tipos de ajuda. A luta é árdua e diária. Mas o preconceito é uma ferida aberta que tem que ser fechada.

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