Crônica de uma história de amor.

Crônica de uma História de Amor: Renato.


NOTA: Eu estou escrevendo na 1ª pessoa do singular porque trata-se de uma visão minha, particular. Mas deixo claro que em todo o processo, contei com a ajuda da minha família, em especial de meu marido que abraçou esta causa tanto quanto eu.


Antes, um sonho


Na verdade, sonhos recorrentes. Sempre o mesmo teor: Eu estava grávida e quando chegava o tempo de ter o bebê (um menino), não havia nada na minha barriga. Acredito que os sonhos são meios de comunicação entre Deus e nós. Ou entre nossos queridos que já partiram e nós. De qualquer forma, mesmo com todas as hipóteses apresentadas pela ciência, estou mais do que convencida que eu estava sendo avisada que teria um filho sem ficar grávida.


A preocupação


Quando soube que ele estava a caminho, ainda na barriga de sua genitora, senti que nossos caminhos um dia se cruzariam. Que seus pais biológicos não seriam capazes de tomar conta dele. Não sei dizer o porquê, mas este sentimento era bastante intenso. Uma intuição, talvez.


Eu o havia visto apenas duas vezes. E a ternura, o apego, a emoção desses encontros até hoje procuro uma explicação e não a encontro. E ele não saía dos meus pensamentos. As dificuldades para encontrá-lo eram muito grandes, intransponíveis, na verdade. As notícias chegavam através do seu pai, meu irmão. E a cada conversa, a cada revelação, eu tinha receio de que ele corria risco. A vontade era tê-lo por perto. Poder abraçá-lo e protegê-lo.


A decisão de ficar com ele


Com o desaparecimento do seu pai, a angústia tomou conta de mim. Sabia que mais do que nunca ele precisava dos meus cuidados. Morando tão longe e precariamente, sem notícias seguras, solto pelas ruas, sem os cuidados que uma criança de quatro anos precisa ter. Tive medo de perdê-lo da mesma forma que perdi o meu irmão. E, mesmo sem pensar nas consequências, decidi ficar com ele. Enfrentar o que viria pela frente.


Uma sacola de supermercado...


...um brinquedo quebrado, uma troca de roupa surrada, uma certidão de nascimento rasgada e imprestável, uma caderneta de vacinação incompleta. Tudo o que ele tinha. Aceitou vir comigo, resignado, assustado. Deitou-se no meu colo, no banco de trás do carro e dormiu o caminho todo. Eu chorava, pensando o que se passava em seu coraçãozinho tão pequeno e com uma vida tão atribulada. Nunca vou me esquecer desse dia.


Uma caminhada difícil


Totalmente inexperiente em relacionamento tão complexo, eu achava que só o amor, carinho, boa escola, uma casa e uma cama quentinha bastariam para ele se sentir bem. Esqueci que o tínhamos tirado da “sua casa”, da sua família. Estava começando uma vida nova com gente estranha, com hábitos estranhos, comida estranha. Hoje fico imaginando como ele deve ter se sentido...sozinho, com medo. 


Com tantas providências a tomar: legalizar a guarda, plano de saúde, escola, check-ups médicos, terapia...e o principal acabou ficando para trás. Acho que esqueci de penetrar em seu íntimo e tentar entender o que ele queria dizer com tanta rebeldia. 

Não foi, com certeza, um começo fácil. Mas faria tudo novamente, só que agora com outra visão, com mais experiência.


Hoje


Depois de algumas tempestades, incluindo-se aí brigas com diretoras de escolas, pedagogas e terapeutas com duvidoso exercício da profissão, finalmente olho para ele e vejo uma criança começando a ser feliz. Está mais confiante, mais amoroso.

Existem hipóteses diagnósticas acerca de seu comportamento, rondando nossas mentes e causando certa preocupação. Mas acredito no poder curador do amor e na equipe multidisciplinar que cuida dele agora. Peço a Deus que nos capacite. Que nos dê saúde e força para continuarmos nossa jornada.

A palavra chave de todo este processo é: CURA. E, além das terapias, é só através de laços de amor, afeto e carinho que venceremos a batalha. E peço a Deus que derrame bênçãos a todo momento, a cada etapa.


Futuro


Deixei de criar expectativas. Melhor viver o agora e comemorar cada conquista, cada superação. Claro que toda mãe quer o melhor para o seu filho. A minha pretensão é entregar à sociedade um homem de bem. Feliz, realizado. Aí sim, terei encerrado minha missão. E se Deus quiser, será desse jeito.


Parte 2 


Experiências e conhecimento devem ser compartilhados, porque trazem alívio quando percebemos que não estamos sozinhos. Li vários depoimentos de pais e o efeito é bastante positivo. São dois anos e meio conosco! Travamos uma batalha diária, alternando momentos de extrema ternura e tempestades. No começo os terapeutas que nos atendiam, diziam que ele estava nos observando. Ao chegarmos no nosso limite, ele teria a certeza de que realmente o queríamos, que não iríamos desistir dele. Era um teste. Acreditamos nesta versão porque, até então, não tínhamos outra. Não conseguimos mantê-lo numa escola particular. As agressões aos coleguinhas tinham se tornado um problema tão sério, que pediram seu afastamento. Tentamos uma escolinha perto de casa, pequena, também não deu certo. Então o matriculamos numa escola pública municipal. Terminou o ensino infantil depois de meio semestre letivo. Agora está no primeiro ano. São raros os dias em que vamos busca-lo e que não haja uma reclamação. 

 


A desobediência à professora e as brigas com colegas são quase diárias. As vezes as crises são tão intensas, que exigem uma abordagem mais severa. É cansativo. Hoje ele está sendo cuidado por uma equipe multidisciplinar do SUS. Está muito bem assistido. Todos nós estamos sendo assistidos. Nesse tempo todo tenho lido muito. Comecei com a leitura de uma dissertação de mestrado de uma psicóloga da PUC-Campinas. Ela aborda a dificuldade de socialização de crianças adotadas e que são privadas de sua vida anterior. Depois li bastante sobre outros transtornos: TDAH – Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade e TOD – Transtorno de Oposição Desafiador. Na minha visão de leiga, o meu menino se encaixava em ambas. 


Precisava aguardar o tempo certo para o diagnóstico. Só recentemente tive a confirmação por parte da neuropediatra que cuida de sua terapia medicamentosa. Infelizmente eu estava certa! Resumindo, ele tem transtornos que, possivelmente, são genéticos. Depois o começo difícil de sua vida, a perda do pai, a separação da genitora. E para completar, a mudança radical de ambiente, aos cuidados de pessoas que ele mal conhecia. Como confiar? Muita coisa para uma mente de um garotinho tão novinho. Junto a este quadro de maus comportamentos, existe uma criança adorável. Carinhosa, inteligente, sagaz e na maior parte do tempo me enche de orgulho. Gosta de ajudar, de dar opiniões e tem compaixão. E são estes bons sentimentos que me levam a crer que esta fase vai passar.


Parte 3

Desabafo

Uma criança TDAH/TOD afasta as pessoas, tanto adultas, quanto outras crianças. Só ficam por perto quem realmente a ama. Perto dela, ninguém relaxa, ninguém consegue ver televisão ou mesmo conversar. Os coleguinhas não entendem suas atitudes agressivas e compreensivelmente, ficam longe, desconfiados.

Percebo que, apesar de existir uma certa boa vontade, a tentativa de compreensão sobre este transtorno é muitas vezes carregada de algum preconceito, de certa desconfiança.


A primeira impressão é que a criança é mimada, mal cuidada ou mal educada, não tem limites etc. É muito difícil encontrar pessoas que realmente entendem as peculiaridades do problema e que estão dispostas a se comprometerem e ajudarem a amenizar os seus efeitos.

Sim, pais de criança TDAH/TOD precisam de ajuda e compreensão. Nós precisamos, sim e muito. Para que isto aconteça, é necessário que invadam nossa vida, nossa casa, nossa história. Não nos importamos, desde que seja por amor.

Porém, infelizmente e dolorosamente, acabamos no isolamento, porque nossa vida social se resume apenas nas poucas e escassas visitas que vêm à nossa casa.


Sair a casa de amigos e parentes fica irremediavelmente inviável, pois o desgaste seria intenso devido a indisciplina, o constrangimento, o julgamento velado, e assim acabamos desistindo da ideia.

Uma solução que encontramos para melhorar o convívio com amigos e parentes é organizar alguns eventos dentro de casa como festas, almoços. Estando em nosso próprio espaço, fica mais fácil contornar algumas situações que fugiram ao controle em outros ambientes.


Outra solução é sair para lugares amplos com equipamentos de lazer e divertimento, além de parques, shoppings, cinema e teatro. Estas atividades o distraem e acalmam. Para ele, é importante a integração com pessoas e movimentos.

Acreditamos que um esporte coletivo seria bem- vindo. Na escola de futebol ele tem a oportunidade de trabalhar em equipe, apesar de que a bola não seja algo que o impulsione. Não interage com os coleguinhas do time, não respeita as regras. Age de acordo com sua vontade, apesar das consequências. Não se importa com elas. Tememos que ele não possa continuar.

Apesar da terapia e dos medicamentos, a melhora tem sido muito lenta, pois existem os fatores desencadeantes das crises como já pudemos constatar em alguns momentos:


a) Negativas e limites que são impostos. Sabemos o quanto é importante para a formação das crianças o senso de limite e o dizer não. Com ele, estas atitudes geram crises.


b) Episódios que mexem com sua auto estima que é baixíssima. Ex. coleguinhas que se recusam a brincar com ele.


c) Frustrações: O curioso é que ele não se importa com bens materiais. Nunca faz birra por um brinquedo que não compramos, por exemplo. Ele tem reações negativas com frustrações emocionais, como falta de atenção.


d) Situações em que se considera abandonado ou esquecido por pessoas que lhe são caras.


e) Lembranças do seu passado, que podem se tornar imagens aterrorizantes e incompreensíveis.


O controle das crises exige, paradoxalmente, muita firmeza e compreensão. E devo confessar, nem sempre estamos preparados para enfrenta-las de uma forma serena.


 

 Faça um comentário, conte sua história, assim ajudamos outros pais a superarem suas dificuldades diárias.

 

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