Um Aluno Diferente.

Sou professora da Rede Municipal de Salvador há 3 anos, entretanto já estou na área de educação há mais de 8 anos. No início do ano fui surpreendida com um aluno sem laudo médico, mas que apresentava em seu comportamento algo de diferente, que necessitaria de um olhar diferenciado. Muitos pais e professores poderão se perguntar: "Mas, você pede laudo médico para todas as crianças?". Não, é claro que não. Durante a graduação temos uma formação extremamente ampla e superficial. Se desejamos trabalhar com algo mais específico é necessário fazer uma especialização. É o que eu estou fazendo atualmente, cursando a Psicopedagogia. Mesmo assim, é uma área muito vasta que ainda me permite me especializar cada vez mais. São tantas demandas na área educacional! Enfim, após 9 meses acompanhando este aluno e tratando-o como "normal" recebi um laudo com C.I.D. na última quinta-feira! E o diagnóstico ainda não está fechado pois ele precisa passar por uma equipe de multiprofissionais para fechar seu diagnóstico. Neste período, houve muitas faltas desse aluno, por motivos de saúde e idas aos médicos do SUS (é uma longa fila de espera). Em cada ausência da sala de aula, para ir ao banheiro ou beber água, a sala pegava fogo, pois meu aluno especial J.F. se levantava da cadeira, girava com os braços abertos no meio da sala, discutia, gritava com os colegas, enfim a sala "pegava fogo" e até retomar a concentração dos demais já havia perdido um bom tempo. Minha saída era levá-lo comigo nas idas ao banheiro e solicitar sua ajuda para eu encher minha garrafa de água. Algumas vezes, JF se recusou a fazer as atividades de sala ou, sinceramente, quando ele não frequentava as minhas manhãs eram tranquilas. Aos poucos, tentei enxergar as inúmeras qualidades de JF: uma vez o áudio da caixa de som, durante a passagem de um filme não funcionou e ele leu a legenda toda do filme para os colegas sem eu pedir! Fiquei extasiada. Ele tem me ajudado a ler as palavras que escrevo no quadro para todos os colegas da sala, quando ele chega é uma imensa alegria para mim e para os colegas, vai cumprimentando um por um, dizendo o nome de todos, não implica mais com os colegas, às vezes ainda os acusa de fazer algo de errado que ele próprio fez, ainda necessito mediar essas questões com os colegas. Tem participado com mais frequência das aulas, faltado menos e eu sinto a sua falta quando ele não vem. Ele ama a escola, ama os colegas, ama estar ali. E meus olhos se enchem de lágrimas com cada conquista sua. A bola da vez é compreender a ideia de adição, é um barato e os colegas vibram com cada acerto dele. E, hoje estou aqui pesquisando sobre esse transtorno a fim de informar à mãe dele, às minhas colegas de trabalho e fundamentar mais ainda a minha prática. Sei que não será fácil, assim como não tem sido este ano, mas acredito que o amor pela profissão nos faz superar todos os desafios! Parabéns pelo site.


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