Filhos: Um caminho sem volta

Não importa se foram gerados ou eleitos através da adoção: Uma vez estabelecido este relacionamento, este vínculo, nunca mais saberemos o que é despreocupação. Já era.

Tenho duas filhas biológicas adultas e independentes. E agora, como sabem, o Renato, meu sobrinho que virou filho. Este moleque está aqui agora, enquanto escrevo essas linhas. Falando, aprontando, se recusando a tomar banho para ir dormir.

As outras duas estão em suas respectivas casas, cuidando de suas vidas, de suas carreiras e amores. E eu aqui e agora não preciso mandar dormir, mas a preocupação também existe. Coisas que só as mães vão entender. Será que os namorados são confiáveis? Será que estão tarde da noite na rua? Será que estão cuidando da saúde? Não adianta. Como disse é um caminho sem volta.

Mas tem algo em comum entre elas e o priminho que virou irmão: Por causa deles três nunca saí de dentro das escolas onde elas estudaram e ele estuda.

Sempre frequentaram escolas públicas. Sofriam “buylling” (na época nem tinha uma terminologia assim). Apesar da escola ser municipal, era frequentada pelos filhos de funcionários de multinacionais. Portanto, um bairro metido a besta e uma escola pública metida a particular. Éramos pobres. As meninas não tinham roupa de grife e tênis NIKE. Ninguém perdoava esta falha. E lá vinham choradeiras. E eu, feito uma leoa, adentrava salas de diretoria e coordenação para defender minhas crias. Aí resolvi fazer parte das associações de pais, conselho de escola, comissão de formatura e tudo que surgisse. Assim, virei assídua participante das rotinas escolares para marcar território.

Nunca tive uma reclamação sequer. Quando elas se formaram no ensino médio, brincamos que nunca tinha sido chamada nas escolas por indisciplina. Uma glória para uma mãe orgulhosa do irretocável desempenho de suas filhotas. 

Sairiam de casa cedo: a mais velha logo após da sua formatura da faculdade e a mais nova saiu com dezoito anos, aprovada numa universidade pública de outra cidade. Nunca mais voltaram para casa. Só como visita, claro. Mesmo assim é difícil acostumar, apesar de termos uma relação familiar muito amorosa.

Chegou o Renato. E consequentemente minha volta às escolas. Só que dessa vez pelos motivos contrários, como todo mundo já deve saber. Só nós, mães e pais, de crianças que apresentam transtornos de comportamento, conseguimos compreender. É a nossa faculdade, a nossa fonte de conhecimento. Nunca na minha vida tinha ouvido falar em TDAH, TOD, TC, TEA. Eu fazia parte daquelas pessoas que hoje a gente combate: A turma do –“ESSA MÃE NÃO SABE DAR EDUCAÇÃO”. Confesso que já estive do outro lado. Hoje me arrependo, mas fazer o quê? Estou pagando a língua.

E eu novamente frequentando a escola. Muito apreensiva, muitas vezes desmotivada, muitas vezes com vontade de desistir. Então vem aquela energia boa e reconfortante de um dia bem sucedido, de um carinho inesperado, de um elogio. Da solidariedade de alguns anjos de carne e osso que Deus espalha ao nosso redor para nos orientar e mostrar um caminho. Caminho este que não tem volta, mas a paisagem é linda e vale a pena vislumbrar. Roseny F. Feijó

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